Junho Violeta: o cuidado também precisa passar pela proteção financeira
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Envelhecer com dignidade também significa ter autonomia, segurança e respeito nas decisões sobre a própria vida, inclusive quando falamos de dinheiro.
Durante o Junho Violeta, mês de conscientização e combate à violência contra a pessoa idosa, é importante falar de algo que muitas vezes, acontece de maneira silenciosa dentro da própria rotina familiar: a violência patrimonial e financeira.
Ela pode começar de forma sutil: um familiar que “assume” o controle das contas sem diálogo, pressões para empréstimos ou assinaturas, uso indevido de cartões, benefícios ou aposentadoria ou em pequenas situações que com o tempo, retiram o poder de decisão e a segurança.
Segundo dados do Disque 100, o Brasil registrou mais de 179 mil denúncias envolvendo pessoas idosas em 2024. A maioria das vítimas são mulheres, especialmente entre 70 e 74 anos, e grande parte das ocorrências acontece dentro do ambiente familiar. Entre os tipos de violência mais denunciados violência psicológica, violência financeira e os casos de negligência, que inclusive, cresceram mais de 45% no último ano.
Quando falamos de violência financeira, estamos falando sobre situações em que os recursos da pessoa idosa são utilizados ou administrados sem consentimento, transparência ou respeito à sua autonomia.
Alguns exemplos comuns são:
- Realizar empréstimos em nome da pessoa idosa sem sua autorização;
- Utilizar aposentadoria, pensão ou benefícios para fins pessoais;
- Pressionar para assinaturas de documentos;
- Controlar totalmente o dinheiro e impedir acesso às próprias contas;
- Reter cartões, senhas ou documentos;
- Aplicar golpes financeiros ou manipular emocionalmente para obter dinheiro.
- Gerar conflitos, pressões ou disputas relacionadas a patrimônio e herança ainda em vida.
Vale ressaltar que não estamos falando dos filhos, familiares ou cuidadores que, de forma consentida e transparente, acabam assumindo o apoio à organização financeira da pessoa idosa, especialmente em situações de dificuldade momentânea, limitações de saúde ou necessidade de suporte no dia a dia.
Em muitos casos, esse cuidado é exercido com carinho, responsabilidade e proteção. A violência acontece quando há abuso, manipulação, uso indevido dos recursos financeiros ou decisões tomadas sem conhecimento da pessoa idosa.
Muitas dessas situações acabam sendo naturalizadas dentro da dinâmica familiar, principalmente quando existe dependência física, cognitiva ou emocional. Por isso, é importante ampliar a conscientização sobre o tema.
E, se a população idosa já enfrenta uma série de vulnerabilidades fora de casa, especialmente quando falamos de segurança financeira, com o aumento dos golpes e fraudes, é ainda mais delicado quando situações de abuso, controle ou manipulação acontecem justamente dentro das relações que deveriam representar acolhimento e proteção.
Nem sempre as marcas da violência são visíveis
Silenciar a pessoa idosa, excluir das decisões, infantilizar, desacreditar da sua capacidade, também são formas de violência emocional e psicológica e podem abrir espaço para abusos financeiros.
O envelhecimento pode trazer mudanças importantes na rotina e nas relações familiares. Em alguns casos, há inversão de papéis, necessidade de apoio ou desaceleração cognitiva. Mas cuidado não deve significar perda de autonomia.
Participar das próprias decisões, entender movimentações financeiras e ser ouvido continuam sendo direitos fundamentais, independentemente da idade.
Também é importante olhar para quem vive essa situação e muitas vezes, não consegue identificar o abuso.
Se alguém controla seu dinheiro sem diálogo, impede seu acesso às próprias contas, pressiona para empréstimos ou toma decisões financeiras sem sua autorização, isso pode ser um sinal de abuso.
Nesses casos, buscar ajuda é fundamental. Conversar com alguém de confiança, procurar apoio especializado ou acionar canais oficiais pode ser o primeiro passo para romper esse ciclo.
O Disque 100 recebe denúncias de violações de direitos humanos de forma gratuita, anônima e funciona todos os dias. Em situações de violência financeira, também é importante buscar orientação junto ao banco ou instituição financeira para proteção de contas, cartões e movimentações suspeitas.
Falar sobre violência contra a pessoa idosa também é refletir sobre convivência, paciência e respeito.
Nem sempre os comportamentos abusivos acontecem com intenção clara de machucar. Muitas vezes, surgem em meio à correria, ao estresse, à dificuldade de lidar com as mudanças do envelhecimento ou à tentativa de “resolver tudo pelo outro”.
Mas acolher também é escutar. É respeitar o tempo e a história de vida construída ao longo dos anos. Cuidar não é retirar escolhas. É apoiar sem apagar a voz de quem envelhece.
Por isso, neste Junho Violeta, o convite é para ampliarmos o olhar sobre as diferentes formas de violência e fortalecermos relações mais conscientes, humanas e respeitosas em todas as fases da vida.
